Voltar ao blog
Equipe Topo

Americanas: as lições contábeis de um rombo de R$ 25 bilhões

O escandalo da Americanas em 2023 expos como contratos de risco sacado fora do balanço podem destruir bilhões em valor. Lemos o caso de tras pra frente -- e o que mudaria com controles mínimos no lugar.

governançaauditoriacaso realcontroles internos

A noite em que o mercado parou

Em 11 de janeiro de 2023, a Americanas anunciou ao mercado um rombo de R$ 20 bilhões nas suas contas. Em poucas horas, a ação perdeu mais de 70% do valor. Em oito dias, a empresa entrou em recuperação judicial. Em junho, o número divulgado pela própria companhia subiu para R$ 25,3 bilhões de lucro fictício acumulado, e R$ 20,6 bilhões de dívida bancária que estavam fora do balanço.

Para quem leu manchetes, soa como fraude exuberante. Para quem leu o relatório, soa familiar.

O mecanismo: risco sacado em curto-circuito

A maior parte do rombo -- R$ 18,4 bilhões -- vinha de operações de "risco sacado", também chamadas de forfait ou confirming. O esquema funciona assim: a empresa precisa de prazo para pagar o fornecedor, mas o fornecedor precisa do dinheiro agora. Um banco entra no meio, paga o fornecedor a vista, e cobra da empresa no vencimento.

Operado corretamente, e uma ferramenta de fluxo de caixa razoável. O problema e como entra no balanço. Para o fornecedor, a venda foi paga. Para o banco, a empresa virou devedora. Para a empresa, se a transação for registrada como dívida com fornecedor (e não com banco), a dívida bancária desaparece do passivo financeiro.

A Americanas registrou essas operações na linha errada por anos. O resultado: o passivo bancário aparecia bem menor do que era, os indicadores de alavancagem ficavam saudáveis, e os auditores -- segundo o relatório publicado pela própria companhia -- não identificaram a divergência.

Por que ninguém viu antes

A história mais perturbadora do caso não é o tamanho da fraude. E o tempo. As irregularidades vinham desde, no mínimo, 2019. Quatro anos. Quatro fechamentos anuais. Quatro auditorias externas. Quatro avaliações de crédito de instituições financeiras. Nenhuma conciliação bateu.

A explicação mais provável não envolve genialidade. Envolve disciplina ausente. Conciliações que dependem de planilhas distribuidas, sem trilha de aprovação, permitem ajustes manuais sem rastreabilidade. Quando o extrato bancário diz uma coisa e o passivo registrado no livro razão diz outra, alguém tem que reconciliar. Se essa reconciliação acontece sem registro, ela pode ser refeita -- ou não acontecer -- sem que ninguém perceba.

O que controles mínimos teriam mostrado

Vamos imaginar o exercício inverso. Suponha que a Americanas operasse com uma trilha de conciliação básica em todos os bancos relevantes. Três coisas mudariam.

Primeira: cada conciliação bancária sairia com timestamp, responsável, evidência anexada e estado explícito (revisada, aprovada, reaberta). Operações de risco sacado teriam aparecido como divergência recorrente entre o extrato bancário e o livro razão. Recorrência indica problema sistemico, não exceção.

Segunda: SLAs com escalação automática fariam contas com divergência persistente subirem na cadeia. Um analista pode justificar uma divergência uma vez. Uma divergência que aparece todo mês por quatro anos vira problema do gestor de area. E depois do diretor. E depois do comite de auditoria.

Terceira: a auditoria externa não precisaria reconstruir a história. Ela consultaria a trilha. Cada movimentação com data, autor e justificativa.

Da fraude exuberante ao engano comum

A lição da Americanas vale para qualquer empresa, em qualquer porte. O escandalo virou manchete por causa do valor envolvido. Mas o mecanismo -- registro em conta errada, ausência de conciliação com evidência, ausência de SLA, ausência de trilha -- e a regra silenciosa de operações contábeis em escala manual.

Empresas que fazem conciliação em planilha distribuida não estão a salvo de Americanas. Elas estão em uma versão menor da mesma história, com a sorte de não ter dimensão para virar manchete.

A diferença entre uma operação contábil que sobrevive a uma auditoria rigorosa e uma operação que colapsa em 24 horas raramente esta nos números. Esta no que existe ao redor dos números: estados explícitos, prazos com responsável, evidência anexada, trilha imutável.

Quando essas quatro coisas existem, fraudes da magnitude da Americanas precisam de cumplicidade ativa em múltiplos níveis. Sem elas, basta omissao.

Implementar trilha imutável, SLAs com escalação e conciliação com evidência em escala manual e teoricamente possível -- e historicamente raro. A TOPO foi desenhada para que esses controles existam por padrão, não por esforço individual. Conheça como funciona a auditoria nativa da plataforma.

Fontes